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Daniela Velho

Reconhecer

Pertencer antes de sermos escolhidos

Daniela Velho · 22 de Setembro de 2026

Pessoa sentada numa praia diante do mar e da luz do sol.

Movemo-nos tantas vezes no anseio de perceber se temos lugar no mundo.

Basta sentirmos uma mudança na forma como somos vistos ou recebidos para alguma coisa vacilar. Aquilo que parecia seguro torna-se incerto e surge o receio de deixarmos de pertencer.

Ser recebido pelos outros importa. Muito do que aprendemos sobre relação e proximidade nasceu das primeiras formas como fomos acolhidos ou deixados de fora. E continuamos sensíveis a isso ao longo da vida.

Mas talvez exista aqui uma pergunta mais funda:

Quando precisamos que alguém nos confirme que temos lugar, o que estamos exactamente a pedir que essa pessoa confirme?

Quando a pertença fica dependente do outro

Podemos deixar de ter lugar numa relação, num grupo ou numa comunidade e isso doer profundamente.

O desafio intensifica-se quando essa perda começa a querer dizer alguma coisa sobre quem somos.

Mais do que não termos sido vistos ou escolhidos, podemos começar a perguntar se haverá alguma coisa em nós que nos torna impossíveis de escolher.

Desta forma, a experiência concreta pode começar a tocar lugares muito antigos e a alterar a percepção que temos sobre nós próprios.

Compreender de onde vem essa sensação é importante, mas a nossa história não responde a tudo.

Porque há uma pergunta que permanece:

Pode alguém decidir, através da sua presença ou da sua ausência, se pertencemos?

Ser escolhido não cria a nossa existência

Há qualquer coisa de profundamente simples que tendemos a esquecer. Antes de alguém nos reconhecer, a vida já está a acontecer em nós.

Respiramos e sentimos. Somos sustentados por relações que nem sequer escolhemos e por condições que nunca criámos sozinhos, independentemente de alguém nos dar lugar.

Já chegámos ligados.

A nossa existência nunca foi um acontecimento solitário.

É verdade que precisamos dos outros. Precisamos profundamente. Mas essa necessidade não significa que a nossa pertença à vida esteja nas suas mãos.

Uma pertença que não precisa de ser concedida

A pertença nas relações pode perder-se, mas a verdadeira pertença não nos pode ser retirada, porque não nos foi concedida por ninguém. Nasce do próprio facto de pertencermos à vida.

Quantas vezes vivemos como se fosse possível ficar de fora? Como se uma rejeição pudesse expulsar-nos da vida?

E, no entanto, a vida continua em nós e através de nós.

O corpo continua a respirar e o chão continua a sustentar-nos. Continuamos dentro de uma realidade que nunca nos pediu autorização para nos incluir.

Será que aquilo que aconteceu tem realmente o poder de decidir se pertencemos à própria vida?

O que pedimos às relações

Ser visto e escolhido importa, mas uma relação não pode decidir, por si mesma, se temos lugar.

Quando fazemos da presença do outro a medida da nossa pertença, qualquer afastamento pode começar a pôr em causa não apenas o nosso lugar, mas a própria forma como nos experienciamos.

Talvez seja por isso que algumas perdas parecem levar consigo muito mais do que aquilo que realmente terminou.

Quanto sofrimento acrescentamos a uma perda quando lhe pedimos que decida também se pertencemos?

Quando pertencer deixa de ser apenas uma ideia

É diferente compreender que pertencemos à vida e senti-lo.

Quando cultivamos uma presença consciente, através da meditação ou de outras práticas de presença, a necessidade de assegurar o nosso lugar começa a abrandar.

Simplesmente porque deixamos, por momentos, de precisar que alguma coisa exterior confirme que podemos estar aqui.

E pode aparecer uma experiência muito simples.

Estou aqui.

Sem ter de conquistar esse direito ou de ser escolhido naquele momento.

A vida já está a acontecer e nós estamos nela.

Isto não elimina a dor de uma relação terminar ou de um lugar deixar de nos receber. Podemos continuar a desejar que alguém fique e sofrer profundamente quando não fica. Mas essa perda deixa de ocupar todo o campo da nossa experiência.

A verdadeira pertença começa então a tornar-se menos uma ideia e mais algo reconhecível na experiência.

E as relações podem até começar a tocar-nos mais profundamente, precisamente porque já não lhes pedimos que confirmem se temos ou não direito a existir dentro da vida.

Algumas referências

Baumeister, R. F. & Leary, M. R. (1995). The Need to Belong: Desire for Interpersonal Attachments as a Fundamental Human Motivation.

Bowlby, J. (1988). A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development.

Mikulincer, M. & Shaver, P. R. (2016). Attachment in Adulthood: Structure, Dynamics, and Change.

Thich Nhat Hanh (2017). The Other Shore: A New Translation of the Heart Sutra with Commentaries.

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