Escutar
Explicar para não sentir
Daniela Velho · 23 de Setembro de 2026

As histórias que criamos acerca das pessoas e dos acontecimentos separam-nos da realidade tal como ela é.
Muitas vezes passamos por experiências dolorosas e, mesmo antes de as sentirmos, já construímos explicações e justificações sobre aquilo que as provocou, fixando-nos no que foi ou não foi feito, ou no que deveria ter acontecido. Essas narrativas podem ter fundamento e, ainda assim, chegar antes de termos reconhecido com clareza aquilo que realmente está a acontecer em nós.
É possível passarmos muito tempo a compreender intelectualmente uma situação sem chegarmos verdadeiramente à emoção que essa situação despertou.
A emoção continua a acontecer enquanto tentamos compreendê-la
Dar um nome ao que sentimos pode ajudar-nos a encontrar alguma orientação, mas não encerra aquilo que está a acontecer.
Aquilo a que chamamos raiva, por exemplo, pode mudar à medida que a sentimos. Quando lhe damos algum espaço, podemos descobrir o medo que ela encobre ou reconhecer a sensação de que um limite foi ultrapassado. A emoção não está parada: vai-se transformando à medida que a sentimos e compreendemos melhor o que está a acontecer em nós.
É por isso que uma explicação demasiado rápida pode ser enganadora e dar-nos a sensação de que já percebemos uma experiência que, na verdade, tem várias camadas e continua a transformar-se.
Compreender o que aconteceu tem valor. Reconhecer que nos sentimos magoados ou que sentimos que um limite nosso foi ultrapassado é importante.
Mas compreender não significa necessariamente que já sentimos aquilo que está a acontecer.
Porque é importante sentir?
Uma emoção é um processo vivo que se manifesta no corpo enquanto atravessamos uma experiência.
Quando sentimos medo, por exemplo, não existe apenas um pensamento chamado “medo”. O organismo modifica-se, a atenção muda e surge uma determinada maneira de responder àquilo que estamos a viver.
Esse processo pode continuar a transformar-se quando existe espaço para o sentir.
Interrompê-lo repetidamente não faz com que aquilo que sentimos desapareça. Podemos conter a expressão da emoção, afastar-nos dela ou explicar muito bem o que aconteceu e, ainda assim, continuar profundamente afectados por essa experiência. Quando isto se torna habitual, aquilo que não pôde ser vivido plenamente pode continuar a fazer-se sentir no corpo e na nossa vida.
Talvez seja por isso que existe uma diferença tão grande entre sabermos que estamos zangados e permitirmo-nos realmente sentir a raiva.
Quando permanecemos com a experiência, a intensidade pode mudar. Aquilo que parecia apenas raiva pode revelar medo. Podemos perceber melhor aquilo que nos tocou ou descobrir que a emoção já não precisa de manter a mesma força.
Sentir, neste sentido, não significa alimentar uma emoção nem seguir automaticamente aquilo que ela nos leva a fazer.
Significa permitir que o processo tenha espaço para acontecer.
É essa possibilidade de permanecer com aquilo que sentimos que permite que uma emoção continue o seu movimento, em vez de ficar apenas repetidamente interrompida cada vez que se torna difícil.
E talvez seja aqui que vale a pena fazer uma pergunta:
Estamos a compreender aquilo que sentimos ou estamos a usar a compreensão para manter distância daquilo que dói?
Regular para poder sentir
Quando uma emoção se torna demasiado intensa, pode ser difícil permanecer com ela.
Abrandar a respiração, sentir o apoio do corpo ou criar algum espaço em relação à situação pode devolver-nos condições para continuar em contacto com aquilo que sentimos sem sermos completamente tomados pela experiência.
Mas há uma diferença importante entre regular para poder sentir e regular para deixar de sentir.
A calma, por si só, não nos diz qual das duas coisas aconteceu.
Podemos recorrer a práticas muito adequadas e, ainda assim, começar a usá-las sempre que alguma coisa se torna difícil de suportar. Nesse caso, a regulação pode transformar-se subtilmente numa forma de afastamento.
Noutras situações, diminuir a intensidade permite precisamente regressar à experiência e senti-la com mais disponibilidade.
Talvez o critério esteja no que acontece depois.
A regulação aproximou-nos da experiência ou tornou mais fácil não voltar a ela?
Quando existem condições suficientes, a emoção pode continuar o seu movimento sem precisar de ser forçada a desaparecer.
Nem sempre existe uma mensagem escondida à espera de ser descoberta. Algumas emoções tornam-se simplesmente diferentes quando finalmente podem ser sentidas.
E há aqui uma distinção que me parece importante: integrar uma experiência não significa necessariamente conseguirmos explicar tudo o que aconteceu.
Algumas experiências transformam-se porque puderam ser vividas de uma forma que antes não era possível, mesmo quando ainda não encontramos palavras suficientes para as compreender.
Quando a escuta se aprofunda
Quando a escuta se aprofunda, deixamos de estar apenas interessados no que a emoção significa e começamos a reparar na própria experiência de sentir.
Quando permanecemos com aquilo que sentimos, a emoção pode deixar de ser vivida apenas como uma coisa dentro de nós que precisamos de compreender ou gerir.
Começamos a reconhecer que sentir e saber que estamos a sentir acontecem na mesma experiência.
A prática de presença consciente pode aprofundar este reconhecimento.
A emoção continua a ter a sua história e a sua realidade psicológica. Mas, quando é sentida desta forma, pode abrir uma investigação mais funda: já não apenas sobre aquilo que estamos a sentir, mas sobre a própria experiência de sentir e de a conhecer.
A escuta abre então uma possibilidade mais funda: começamos a reconhecer que a experiência está sempre a mudar e, ao mesmo tempo, que há em cada momento uma capacidade de conhecer aquilo que está a acontecer. Essa capacidade é inata e revela-se no próprio sentir.
É aqui que sentir liberta. Porque percebemos que aquilo que sentimos está presente, mas não é tudo o que somos.
Algumas referências
Gross, J. J. (2015). Emotion Regulation: Current Status and Future Prospects.
Barrett, L. F. (2017). The Theory of Constructed Emotion: An Active Inference Account of Interoception and Categorization.
Critchley, H. D. & Garfinkel, S. N. (2017). Interoception and Emotion.
Varela, F. J., Thompson, E. & Rosch, E. (1991/2017). The Embodied Mind.
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